Nos pedais da padeira

BicicletaPadeira

A mobilidade urbana também passa pelo transporte de mercadorias. Nada melhor para ilustrá-lo que o perdido hábito das padeiras de Vale de Ílhavo, que transportavam o pão e o vendiam porta-a-porta com o auxílio da bicicleta. Um conjunto de dois grandes cestos em vime era colocado sobre a estrutura traseira da bicicleta e as centenas de pães acomodavam-se, chegando aos destinatários em perfeitas condições, mesmo em dias de chuva.

No âmbito do 1º Aveiro City Bike Experience, o Ciclaveiro decidiu proporcionar aos participantes um breve contacto com este hábito. A padeira Maria Lassalete Vidal Rolo cedeu-nos gentilmente a sua antiga companheira e os participantes tomaram o seu lugar para uma breve volta.

DA PERIFERIA DE ÍLHAVO AO CORAÇÃO DE AVEIRO

Antes do evento, foi necessário trazer a bicicleta desde a sua morada, o que se revelou uma oportunidade para me colocar nos pedais das padeiras de Vale de Ílhavo por cerca de 9 km.

As primeiras pedaladas foram de algum desequilíbrio, mesmo sem pão, mas facilmente me habituei. A largura dos cestos obriga a que se tenha maior atenção ao espaço a ocupar na via: finalmente uma boa desculpa para seguir em segurança pelo centro da faixa sem buzinadelas injustificadas. Inclinações laterais também são de reconsiderar, para não levarmos demasiado peso para um dos lados e para não roçarmos com os cestos no chão.

Nas subidas mais exigentes optei pelo passeio, visto que a bicicleta não tem mudanças. Ficou ainda mais evidente a usurpação do espaço público pela ditadura do automóvel, que deixa para os peões e árvores uma parte insuficiente do espaço urbano: foi uma prova de obstáculos fazer passar a largura de duas pessoas por entre árvores, caixotes de lixo, sinais de trânsito e postes de iluminação. Como será para um cego?

A parte mais interessante da viagem foi a reacção das pessoas. “Já não via uma bicicleta destas há muitos anos” ou “O que é que você vende?” foram as observações mais concorridas, para além do previsível “Olha, lá vai o padeiro” (em alguns casos preferia que me tivessem chamado “um pão”). Houve mesmo quem me abordasse para comprar a mercadoria invisível.

A LEI PREFERE O AUTOMÓVEL

Segundo a Dona Lassalete, os padeiros deixaram de usar a bicicleta por imposição da GNR. Tudo indica que se deva a questões de transtorno à circulação viária ou relativas às actividades económicas (hoje a cargo da ASAE). Não fosse isso, ela continuaria a preferir a sua bicicleta, tanto pelos custos reduzidos como pela exposição de que beneficiaria a sua actividade.

Estas mudanças testemunham um paradigma que se impôs, com consequências nas relações de proximidade entre comerciante e cliente e de vida nas localidades: os arruamentos deixaram de ser espaços vivos de interacção entre as pessoas e tornaram-se num local de passagem rápida e impessoal, em que os não automobilistas parecem intrusos e empecilhos. Há vários exemplos do norte da Europa que nos mostram que o papel do automóvel está sobrevalorizado e que a sua reconsideração traz revitalização das comunidades. Podemos também reparar que, para além da concentração de lojas, o que há de comum entre os concorridos centros comerciais e as ruas de comércio tradicional de maior vitalidade é ausência de automóveis à porta das lojas. As pessoas preferem locais onde se possa caminhar à vontade, sem preocupações com o perigo do trânsito automóvel ou com o obstáculo que o estacionamento traz à largura dos passeios.

OPORTUNIDADES À ESPREITA

Há lugar à recuperação, com as devidas adequações, do papel dos transportes não motorizados tendo em vista o comércio e a distribuição. A curiosidade das pessoas com que me cruzei levam-me a antever popularidade no retorno destes meios tradicionais: aproximam os comerciantes do seu público, dão visibilidade e dinamismo à suas actividades e animam os locais por onde passam – refiro-o visando o leitor para quem as vantagens ambientais e de segurança infelizmente não somam importância suficiente. O lugar da bicicleta do pão não tem de ser no museu nem numa montra da moda: se a bicicleta já é o veículo mais eficiente para chegar ao trabalho, pelo menos em meio urbano, pode ainda ser a melhor companheira de trabalho.

Pedro Oliveira Santos

(Artigo originalmente publicado no Diário de Aveiro de 31/08/2015)

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