Um de mil resumos da aventura Daqui Ali

De Portugal a África do Sul de bicicleta

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Com as primeiras pedalas vem o primeiro sentimento, a primeira névoa de uma realização que acontecerá ao longo dos próximos quinze mil quilómetros, dos próximos quinze meses. As pernas enrijecem logo na primeira subida, as gotas escorrem testa abaixo, atravessam a roupa mal preparada e já se colam à pele, os arrepios vão-se tornando numa sensação geral de frio que a adrenalina não deixa que se torne demasiado desconfortável. “Não estou a pedalar nem há vinte minutos, não posso empurrar a bicicleta a pé já” penso, naquela subida que navego a menos de dez à hora. Águeda parece longe, tão longe, e não a quarenta quilómetros. Digo asneiras e digo mais quando vejo a placa a anunciar a cidade pela primeira vez, desta vez de euforia. Os quilómetros desdobram-se e só penso “África do Sul, África do Sul” e fixo-me nesta ideia aparentemente louca, penso intensamente no continente africano todo e não me deixo demover.

E depois chego. E desmonto da Bicicleta, depois de ter feito a maior viagem de toda a minha VIDA, uns meros quarenta quilómetros, e tudo volta a parecer mais possível que nunca. As pernas doem mas a alma sente-se bem, consciente de que perseverou quando desistir seria mais fácil. Naquele momento, pelo menos, pois uma desistência, na verdade, nunca é mais fácil. No fundo é o mais difícil de tudo, porque talvez fique ainda mais para sempre.

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Coimbra, Figueiró, Proença… Portalegre, e a minha primeira pequena pausa. Cruza-se a primeira fronteira de seguida e começo a entender-me melhor com a Mónica, o nome que viria a dar à Bicicleta, meses mais tarde, numa qualquer estrada de terra vermelha. Ainda não lhe sei reparar devidamente os furos que aparecerão no primeiro país africano, não sei ajustar as mudanças nem os travões devidamente, mas começamo-nos a entender. Começo a sofrer menos e a apreciar mais o Vento na cara, a lentidão que me permite olhar para aquelas árvores, aquelas caras.

Entro em Marrocos e sinto que está quase a começar a viagem. É mais um preâmbulo antes do real início que sinto ser mais abaixo, quando entrar no Senegal. Acompanhado por um novo amigo que conheci no barco que separa os dois continentes fazemos mil quilómetros, o canadiano já com dezenas de milhares de quilómetros nas pernas ao longo da sua VIDA contra os meus de poucas centenas de alguém que nunca fez, até ali, das duas finas rodas o seu hábito, segue simpaticamente apenas um pouco à frente, perdoando a minha inexperiência. Seguimos depois os nossos próprios caminhos e eu entro no deserto, com os Ventos pelas costas dando-me a cortesia de duzentos, ou quase, quilómetros diários sem grande esforço.

O deserto acaba quando acaba a Mauritânia e entro no Senegal. Estou em forma! Sou um amador, nabo, ignorante, sou essas coisas todas mas já estou em forma, sinto que atingi com tanta mais facilidade do que aquela esperada o meu pico! E sinto-me feliz por me sentir assim… forte! Mas as viagens em Bicicleta, especialmente por sítios como África são viagens parcas em constância, e se em alguns dias sinto-me o Lance Armstrong português, noutros sinto-me capaz de rebentar. Sem saber ao certo o que se passa comigo, vejo a Matadeira aparecer quatro ou cinco vezes em dias que me deixam sem saber explicar o que aconteceu. A Matadeira… começa com um arrepio na perna direita, depois nas duas, depois começa a correr-me água pelo nariz, fico com uma sede que nenhuma água mata, os ouvidos entopem-se e finalmente aquela dor de cabeça que me faz ter de parar e pensar se estou a sonhar ou se aquilo está a acontecer mesmo, tal a incerteza e a névoa. Começou na Mauritânia, onde me atacou duas vezes, lançou-se a mim no Senegal outro par e a última na Guiné-Bissau, quando me deito no chão, olho para a direita e digo à Mónica “Não posso ser refém de mim próprio…” Porque na obsessão de fazer todo e cada quilómetro entre Vale de Cambra e a Cidade do Cabo abusava de mim. Ia contra o instinto que me dizia para apanhar uma boleia de uma carrinha e massacrava-me mais do que merecia. Até não poder mais, literalmente. Faltavam-me sessenta quilómetros até à capital guineense, os cinquenta graus não ajudavam. A primeira carrinha levou-me. Como tinha acontecido noutra vez, em Marrocos, em que tive de apanhar boleia, tinha planeado voltar para trás para completar os quilómetros negligenciados. Mas era um desvio de qualquer maneira, deixa lá isso…

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A África Ocidental passou com mais do que a intensidade esperada. Mas a intensidade é bem-vinda por estes lados. A passagem da Guiné-Bissau para a Guiné-Conacri fica guardada num canto especial no coração. A floresta densa, a estrada terrível, a vibração da Bicicleta, as coisas a cair, o calor descomunal… e depois aquele rio, aquela piroga, aquele dilúvio, aquele abrigo e aqueles miúdos a virem-me entregar mangas, bem recebidas para quem não tinha possibilidade de jantar…

Ser detido na Serra Leoa por polícias bêbedos, ser parado pela polícia vinte e três vezes na Nigéria e ser confrontado milhares de vezes com a velha questão “Mas porque é que tu fazes isso?” A resposta de “Porque quero conhecer, quero saber de culturas que não são as minhas” nunca chegava. E porque é que eu queria fazer aquilo? E porquê de bicicleta? Queria fazer aquilo porque queria, como sempre, conhecer pessoas e povos que não fossem como eu, pessoas e povos que pensassem diferentemente e me introduzissem cada vez mais a noção de relatividade em relação ao que está certo e errado. E de bicicleta… primeiro porque era um desafio, um desafio incrível, e porque tinha ouvido estórias de pessoas que o tinham feito. Que se lixasse não ter experiência nenhuma, que se lixasse tudo, se outros humanos conseguiam, eu também. Mas depois percebi as verdadeiras razões para fazer uma viagem destas… O prazer de saber que percorremos tanto caminho só com as nossas pernas… sem gastar um cêntimo. E aquela razão imensa que é estar numa vila de vinte pessoas no Gabão numa cerimónia xamânica e saber que só de bicicleta lá podia ir ter. Porque de mota, à boleia, de autocarro, uma pessoa transita quase sempre de cidade em cidade ou, pelo menos, de destino pré-concebido para destino pré-concebido, ao invés de até onde o cansaço nos permitir. Vemos mais, sentimos mais.

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Dos Congos para Angola, os campismos à beira da estrada, as garrafas de água ofertadas por almas caridosas que apareciam sempre no momento certo e depois a Namíbia, com as girafas, zebras, gnus e os javalis… tantos javalis.

Na África do Sul chegou o final, com a Mónica a anunciar a sua morte. O desviador, que fez tudo, partiu-se a duzentos quilómetros do fim. Um usado para substituir. Fiz tudo com uma bicicleta que custava menos de metade das bicicletas dos companheiros de viagem que tive, e isso deu-me mais tropelias. Mas não me arrependi nunca de ter levado aquela comigo. Cheguei ao fim. É certo que perdi mais tempo em reparações, mas remendar um pneu ou tentar ajeitar os travões na floresta ou no deserto, ainda que pleno de frustração no momento, não me parece um momento nada mau agora que escrevo aqui em casa dos meus pais…

António Pedro Moreira

O António Pedro é um rapaz de Vale de Cambra que gosta de viajar e de escrever.

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2 comments

  1. Pingback: Um de mil resumos da aventura Daqui Ali | pedalo pela cidade

  2. Rui Maurício Ferreira

    Muitos parabéns.
    Quero começar por fazer algo idêntico mas vou perder a virgindade num mero passeio de Lisboa->Algarve este ano. Para o ano, outros percursos virão em outros países.
    Um abraço,
    RMF

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